Porto-alegrenses Dizem "não" ao Progresso (Pontal do Estaleiro)
Eu participo do SkyScraperCity, que é um fórum na Internet que discute arquitetura e urbanismo nas cidades do mundo inteiro. Certa vez, um forista, ao mencionar o conjunto de prédios feios de Porto Alegre, criticou minha cidade afirmando que aqui as pessoas são contra o desenvolvimento. De imediato, eu discordei dele.
Entretanto, depois do que aconteceu no dia 23/08/2009, eu preciso rever meu ponto de vista. Passei a dar crédito àqueles que alegam que a população de Porto Alegre é avessa ao progresso e desenvolvimento urbano da cidade. Pelo menos, por ora.
No dia 23/08 houve a consulta popular para decidir sobre a construção ou não de edifícios residenciais numa região da orla do Guaíba chamada de Pontal do Estaleiro.
Do que se trata o Pontal do Estaleiro?
Pontal do Estaleiro é como ficou conhecido um projeto de revitalização de uma área na Zona Sul de Porto Alegre, na orla do Guaíba em um acidente geográfico chamado Ponta do Melo. (foto 1) A região se localiza entre o Museu da Fundação Iberê Camargo e o Barra Shopping Sul, no bairro Cristal. Por extensão, Pontal de Estaleiro também passou a ser o topônimo que se refere àquela área. Poucas pessoas devem saber que o nome verdadeiro do local é Ponta do Melo.
Durante anos, funcionou na Ponta do Melo uma “montadora de navios”, ou seja, um estaleiro, chamada de Estaleiro Só. Daí a palavra “estaleiro” no nome do projeto.
Nos anos 80 do século passado, o Estaleiro Só começou a enfrentar dificuldades financeiras insanáveis que culminaram com a sua falência na primeira metade dos anos 90. Em função de uma dívida trabalhista astronômica e impagável, não restou outra saída senão leiloar todo terreno a fim de cobrir as dívidas da massa falida. Mas ocorreu que em várias tentativas de leilão, a área nunca conseguia ser arrematada em função do preço demasiado alto.
Um dia, finalmente, uma empresa construtora comprou a área e desenvolveu um projeto, o tal Projeto Pontal do Estaleiro, prevendo a construção de três edifícios residenciais e alguns outros comerciais. Além dos edifícios, uma área de lazer para o desfrute da população.
Mas como há uma lei municipal que veda a construção de edifícios residenciais no espaço entre as avenidas que margeiam a orla e a orla, o projeto passou a ser criticado por diversos setores da sociedade civil. Uma alteração na lei foi sugerida, o que causou histeria em muitos e protestos. A solução encontrada pelo prefeito de Porto Alegre foi levar a decisão sobre também construir ou não edifícios residenciais na Ponta do Melo à consulta popular, o que aconteceu no dia 23/08/2009. A participação da população na consulta foi facultativa. Quem participou teve que optar entre o SIM e o NÃO. “Sim” para a construção de edifícios residenciais, também. Ou “não”.
Infelizmente, ganhou o “não”.
Dentre os vários argumentos que eu li e ouvi daqueles que fizeram campanha em favor do NÃO à construção de edifícios residenciais na Ponta do Melo, dois foram os que mais me chamaram a atenção:
1 - A área da orla deve ser para usufruto da população, e não para a construção de residências particulares, favorecendo poucos afortunados.
2 - Edifícios residenciais tapariam a visão do pôr-do-sol no Guaíba e impediriam a pessoas de admirar o espetáculo da natureza tomando o seu costumeiro chimarrão.
Houve também um catatau de argumentos de caráter ambiental, mas que eu não vou citar nem entrar no mérito por eu ser leigo na área de ambientalismo.
Quero comentar os dois argumentos que mais me chamaram a atenção.
Começo com o primeiro argumento:
A área da orla deve ser para usufruto da população, e não para a construção de residências particulares, favorecendo poucos afortunados.
Eu também concordo com o argumento de que a orla do Guaíba deva ser voltada para o lazer da população de Porto Alegre. Mas será que isso vem acontecendo em outras áreas de nossa orla?
Interessantemente, com o suporte do Google Earth, eu fiz um levantamento sobre o tema e descobri que a partir da Ponta do Melo em direção sul, há quatro trechos da nossa orla em que usufruir do Guaíba é impossível para a população em geral. E há um quinto trecho, ao norte da Ponta do Melo, ocupado por um clube de futebol.
Vou discorrer um pouco sobre cada trecho.
Trecho 1 – Ponta do Melo até Prainha da Assunção (4 km) - Foto 2
No trecho contínuo de aproximadamente 4 km a partir da final da Ponta do Melo (próximo ao Barra Shopping Sul) até a prainha da Assunção (onde uma vez houve o bar Timbuka), toda a área é tomada por particulares. Ou seja, conforme os proponentes do NÃO, 4 km daquilo que deveria ser para o lazer dos porto-alegrenses entregues totalmente aos particulares. Logo no seu início, em frente ao Barra Shopping Sul, encontra-se um campo de treinamento e escolinha de futebol do Grêmio Foot-Ball Club Porto-Alegrense. Depois, aparecem as marinas do clube Ventos do Sul. Vizinho ao clube Ventos do Sul, temos o clube Veleiros do Sul. E depois do Veleiros do Sul, tem-se a Vila de Pescadores da Assunção que se estende até o Corpo de Bombeiros. Ao lado do Corpo de Bombeiros, a sede do SAVA Clube (Sociedade Amigos do Bairro Assunção). Ao lado do SAVA Clube, há uma sede campestre de uma associação cujo nome eu não me lembro agora. Só então chegamos a um trecho pequeno onde a população pode usufruir da orla: a prainha da Assunção. Nela, antigamente havia um barzinho bem na orla chamado Timbuka. A prainha da Assunção continua sendo até hoje um dos raros lugares onde as pessoas se reúnem para tomar chimarrão de dia e apreciar o pôr-do-sol no final da tarde. À época do Timbuka, à noite, o local virava fumódromo. Estranhamente, a prefeitura de Porto Alegre cassou a licença do Timbuka e trouxe o bar ao chão. Contudo, todos os clubes e sedes campestres nas cercanias continuam existindo.
E aí, pessoal do NÃO, o que fazer no trecho de cerca de 4 km entre a Ponta do Melo e a Prainha da Assunção, tomado de clubes e residências particulares e vedado completamente para o uso da população em geral? O que vocês dizem?
Foto 3 Trecho 3 – Espírito Santo até Vila dos Sargentos (2 km) - Foto 4
O outro trecho, desta vez mais curto, estende-se por cerca de 2km e vai do bairro Espírito Santo até a Vila dos Sargentos. Nesse trecho, há um camping municipal, seguido de residências particulares, um condomínio de casas de luxo e finalmente a Vila dos Sargentos, que é um bairro popular que os não gaúchos chamariam de favela. É na Vila dos Sargentos que termina o contínuo urbano de Porto Alegre na orla do Guaíba.
E aí, pessoal do NÃO, o que fazer nesse trecho de cerca de 2 km de orla completamente vetada ao uso e lazer de vocês? O que vocês dizem?
Foto 4
Trecho 4 – Vila dos Sargentos até Praia do Veludo em Belém Novo (10 km)
Trata-se do mais longo trecho num contínuo de cerca de 10km que vai da Vila dos Sargentos até a praia de Belém Novo. Esse trecho é à parte uma vez que a partir da Vila dos Sargentos, o contínuo urbano deixa de existir e é substituído por regiões alagadiças de difícil acesso, intercaladas por pequenos trechos urbanizados. Há, na face sul do Morro da Ponta Grossa, algumas residências, sendo algumas de luxo, cujos terrenos terminam na beira do Guaíba (foto 5) . E o absurdo de orla ocupada por particulares continua depois de Belém Novo, com sedes campestres, inclusive a da AJURIS, cujos terrenos se estendem até o Guaíba, sendo de lazer exclusivo de alguns poucos privilegiados.
E aí, pessoal do NÃO, o que fazer no trecho da face sul do Morro da Ponta Grossa tomado de residências particulares e vedado para o uso da população em geral? O que vocês dizem?
Foto 5Trecho 5 – Parque Gigante do Sport Club Internacional (1,2 km)
Esse último trecho é o único ao norte da Ponta do Melo. Nele, depois da conclusão do aterro do Guaíba nos anos 70, o Sport Club Internacional ocupou uma vasta área entre a avenida Beira-Rio e o Guaíba para construir o seu Parque Gigante, com piscinas, churrasqueiras e restaurantes. O primeiro prefeito petista, Olívio Dutra, tentou, sem sucesso, recuperar a área para o município. São cerca de 1,2 km de orla para usufruto único de poucos privilegiados.
E aí, pessoal do NÃO, o que fazer no trecho do Parque Gigante, inconcesso para o uso da população em geral? O que vocês dizem?
Será que eu fui a única pessoa a se dar conta que maior parte da orla do Guaíba, nos trechos entre as vias públicas e as margens do lago já estão tomadas pelos particulares?
Foto 6
O que mais me entristeceu foi saber que na consulta popular muitas pessoas disseram NÃO à construção de edifícios residenciais na Ponta do Melo sem sequer conhecer o projeto direito. Uma conhecida minha, jovem e não moradora da Zona Sul de Porto Alegre, acreditou que o projeto era apenas para a construção de edifícios residenciais. Desconhecia ela que a maior parte do projeto era de áreas comerciais e de lazer. E tal detalhe foi ocultado pelo pessoal que fez campanha ferrenha a favor do NÃO. A minha conhecida ainda opinou que em toda área da Ponta do Melo deveria ser construída uma praça. Ela não está de todo errada. Eu também acho que esse destino seria o melhor de todos para aquela área. Contudo, ignorou ela que a construção de uma praça ali é inviável por se tratar de um terreno particular. Quem o comprou, pagou milhões por ele. E ninguém que paga milhões por um terreno vai querer transformá-lo totalmente em praça pública. Se isso acontecesse, seria o supra sumo da filantropia. Assim como essa minha conhecida, que não tem culpa por sua ignorância, mas que também não procurou se informar, muitos, sem conhecer o projeto na íntegra, deixaram-se levar por um campanha a favor do NÃO que omitiu detalhes importantes do projeto.
Passo agora ao segundo argumento:
Edifícios residenciais tapariam a visão do pôr-do-sol no Guaíba e impediriam a pessoas de admirar o espetáculo da natureza tomando o seu costumeiro chimarrão.
Bobagem pura!
Eu moro no bairro Cristal e passo com freqüência pela Ponta do Melo. O trecho da avenida Padre Cacique na região é de alta velocidade e de tráfego sempre intenso. Entre o Museu da Fundação Iberê Camargo e Shopping Barra Sul há uma curva, sendo trecho obrigatório para todos que se dirigem para a Zona Sul de Porto Alegre via orla. Os carros passam sempre em alta velocidade e ninguém para ali para apreciar o pôr-do-sol ou tomar chimarrão. Não há onde estacionar e se diminuírem a velocidade do carro, correm o risco de causar um acidente.
Nenhuma construção ali taparia o pôr-do-sol, caso fosse erguida.
Um dos lugares consagrados onde os porto-alegrenses vão tomar chimarrão apreciando o pôr-do-sol são a Usina do Gasômetro e a orla entre a Usina do Gasômetro e o Parque Marinha do Brasil.
A propósito, o prédio da Usina do Gasômetro tapa o pôr-so-sol, impedindo que a população o admire?
Outros pontos de admiração do pôr-do-sol ao sabor de um bom chimarrão são a prainha da Assunção, a Ponta do Cachimbo e a praia de Ipanema.
Pelo cálculo que eu fiz com a ajuda do Google Earth, a população geral de Porto Alegre pode atualmente usufruir de apenas 7 km da orla do Guaíba para apreciar sua beleza, praticar algum esporte, admirar o pôr-do-sol e tomar chimarrão em contemplação ao lago.
Por outro lado, são cerca de 28,7 km de orla completamente interdita aos porto-alegrenses em geral para as atividades que eu citei no parágrafo anterior. São cerca de 7 km de Cais do Porto e 21,7 km que ou foram entregues aos particulares (residências, clubes esportivos, sedes campestres) ou são de difícil acesso por serem zonas alagadiças.
Repetindo, dos cerca dos 35,7 km de orla do Guaíba em Porto Alegre, da foz do rio Gravataí até a praia do Veludo em Belém Novo, apenas 7 km podem ser desfrutados pela população geral da cidade para o seu lazer. A orla de Porto Alegre continua depois da Praia do Veludo e termina na Praia do Lami. Mas esse trecho não entrou no cálculo dos meus dados.
Concluindo:
É com muita tristeza que eu vejo a vitória do NÃO à construção de edifícios residenciais e modernos no Projeto do Pontal do Estaleiro com base em argumentos um tanto absurdos. Porto Alegre carece de revitalização de sua orla. Quando um projeto bom aparece, a população o recusa, dando razão àqueles que nos rotulam de sermos contra o progresso e desenvolvimento. E é mais triste ainda saber que muitos dos que optaram pelo NÃO, fizeram-no sem conhecer o projeto em sua totalidade, possivelmente embalados pelo modismo de se dizer não e influenciados por uma campanha que ocultou a totalidade do projeto, muito provavelmente impregnada de razões mais ideológicas do que sensatas.
Para o pessoal do NÃO, é muito melhor ver a área do Ponta do Melo atirada como está, ocupada por moradores de rua e sem absolutamente ninguém daqueles que votou no NÃO ali para tomar chimarrão e apreciar o pôr-do-sol.
Viva a continuidade do desprogresso!
























































































































